Economia
Crédito estruturado apoia mecanização da cafeicultura
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A Octante, que atua na estruturação de operações de crédito e securitização, lançou um FIDC Warehouse voltado ao financiamento da comercialização de máquinas agrícolas para a cadeia da cafeicultura. A iniciativa busca conectar produtores rurais, concessionárias e mercado de capitais por meio de uma estrutura baseada em recebíveis originados nas vendas realizadas a prazo.
A operação chega em um momento de expectativa positiva para o setor. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira de café de 2026 está estimada em 66,7 milhões de sacas, alta de 18% em relação ao ciclo anterior e potencialmente o maior volume já registrado pela série histórica da companhia.
Nesse contexto, a Octante estruturou uma operação voltada ao financiamento da aquisição de máquinas agrícolas para produtores da cadeia da cafeicultura. A iniciativa conta com a parceria da Unibarter, empresa que atua há mais de dez anos ao lado da Octante e apoia a aproximação com concessionárias e originadoras, além da formalização das CPRs envolvidas nas operações.
“A oportunidade surgiu a partir do relacionamento da Octante com parceiros, concessionárias de máquinas agrícolas e participantes da cadeia da cafeicultura. Ao longo desse processo, identificamos uma demanda crescente por financiamento para aquisição de equipamentos, em um momento em que a mecanização tem se tornado cada vez mais importante para ganhos de produtividade e eficiência operacional”, afirma Guilherme Muriano, sócio da Octante.
A estrutura permite que o produtor adquira a máquina de forma parcelada, enquanto a concessionária recebe os recursos à vista. Os financiamentos possuem valor médio de aproximadamente R$ 300 mil por produtor e são destinados exclusivamente à aquisição de máquinas e equipamentos utilizados na cultura do café.
Segundo a Octante, produtores de café precisam investir continuamente em mecanização para ampliar produtividade e eficiência operacional, mas nem sempre encontram condições de financiamento compatíveis com o ciclo da atividade. Ao mesmo tempo, concessionárias e distribuidores precisam apoiar suas vendas sem comprometer capital próprio. A estrutura foi desenvolvida justamente para conectar essas duas necessidades.
De acordo com a Octante, a operação também reflete uma demanda crescente por fontes complementares às linhas tradicionais de crédito rural, especialmente para investimentos em bens de capital.
“Estruturas como o FIDC Warehouse têm um papel importante porque ajudam a diversificar as fontes de financiamento disponíveis para determinados setores da economia. Na prática, elas reduzem a dependência exclusiva do crédito bancário tradicional e das linhas oficiais de crédito rural, ampliando as alternativas de captação de recursos para empresas e produtores”, explica o executivo.
A iniciativa também está alinhada à visão da Octante sobre o agronegócio brasileiro. Para Muriano, a análise de crédito no setor exige compreender fatores que vão além dos indicadores financeiros tradicionais, considerando características próprias de cada cadeia produtiva, como sazonalidade, ciclos de receita e riscos operacionais.
“O agronegócio é, por natureza, um setor cíclico. Por isso, quando avaliamos uma operação de crédito, buscamos olhar além do momento específico do mercado e entender a capacidade dos agentes envolvidos de atravessar diferentes ciclos, sejam eles de preços, clima, custos de produção ou condições de financiamento”, afirma.
Muriano avalia que períodos mais desafiadores também podem criar oportunidades para o desenvolvimento de soluções financeiras mais aderentes às necessidades de produtores e empresas da cadeia. Nesse contexto, a qualidade da origem, das garantias e do monitoramento das operações se torna um fator central na análise de risco.
Atualmente, a Octante é a única investidora do fundo, com capital próprio alocado na operação. A expectativa é que, à medida que a carteira ganhe escala e histórico operacional, a estrutura possa evoluir para formatos com participação de outros investidores institucionais, ampliando a capacidade de financiamento da cadeia produtiva.
Sobre a Octante
A Octante atua na estruturação de operações de crédito e securitização, com foco no desenvolvimento de soluções de mercado de capitais para diferentes setores da economia. Sua atuação inclui operações ligadas ao agronegócio e ao crédito privado, por meio da estruturação de instrumentos voltados ao financiamento de atividades produtivas.
Economia
Estudo aponta caminhos para ampliar biometano no transporte
Com a definição dos governos que assumem em janeiro, o Instituto MBCBrasil propõe tratar o biometano como pauta de Estado, uma agenda de longo prazo, capaz de atravessar mandatos e aproveitar um potencial que o Brasil já reúne, graças à sua produção agroindustrial e à disponibilidade de resíduos que podem ser transformados em energia. O ponto de partida é o estudo internacional From Waste to Wheels – Turning Organic Waste into Renewable Fuel for Transport, conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Itajubá, Instituto Agronômico de Campinas e Instituto Mauá de Tecnologia.
O combustível não é mais uma aposta distante: já é produzido em cerca de 40 países e usado no transporte em quase 30 mercados. No Brasil, o levantamento registra mais de 755 plantas de biogás. Já as plantas de biometano, o biogás purificado que pode substituir o gás natural e o diesel, somam cerca de 21 em operação e outras 47 em desenvolvimento ou autorizadas, segundo dados da ABiogás e da ANP. Projetos de usinas como Cocal, Raízen, São Martinho e Adecoagro mostram que a conversão de resíduos em combustível já opera em escala comercial. Mesmo assim, o setor sucroenergético aproveita menos de 2% do seu potencial de biogás, que soma cerca de 41 bilhões de m³ por ano.
A distância entre o potencial e a produção não se explica pela falta de tecnologia. “Para avançar, precisamos investir em infraestrutura e distribuição, ampliar o acesso ao financiamento e à capacitação técnica, garantir previsibilidade regulatória e estimular o desenvolvimento do mercado. São frentes em que as políticas públicas têm um papel fundamental”, afirma José Eduardo Luzzi, presidente do Conselho de Administração do Instituto MBCBrasil. São justamente frentes em que a ação pública faz diferença.
No plano federal, a agenda passa pelo crédito para plantas de biodigestão e por regras estáveis, como a Lei do Combustível do Futuro, que criou o Certificado de Garantia de Origem do Biometano e uma meta de descarbonização do gás natural fixada em 0,5% para 2026, que pode chegar a 10%. O estudo defende que créditos baseados na intensidade de carbono sejam combinados à remuneração pelo metano evitado e cita o RenovaBio como referência. O mesmo vale para o biofertilizante, o digestato das plantas pode substituir parte dos fertilizantes sintéticos, e na Europa reduziu a demanda por adubo mineral entre 20% e 40% em vários sistemas agrícolas. Em mercados maduros, receitas paralelas como digestato e créditos de carbono respondem por 20% a 60% do faturamento das plantas.
Nos estados, a agenda passa pelo gás canalizado, cuja distribuição é competência estadual pela Constituição (art. 25, § 2º). O gargalo é logístico: apenas 10% do potencial de biometano da América do Sul está a menos de 20 km de gasodutos. Como a matéria-prima está no interior, perto de usinas, granjas e aterros, a expansão depende de redes locais e de postos fora dos grandes centros. O estudo defende corredores de abastecimento que combinem gás comprimido em rotas regionais, gás liquefeito em longas distâncias e o transporte do combustível em caminhões onde não há duto. Nesse desenho, a coordenação entre distribuidoras, produtores e frotas é decisiva.
O retorno ambiental justifica o esforço. Em veículos pesados, o biometano pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa em cerca de 70% a 90% em comparação ao diesel, dependendo da origem da biomassa e da avaliação de ciclo de vida. Alguns estudos brasileiros apontam reduções entre 45% e 75%, podendo chegar a um balanço de carbono negativo em determinadas condições. O combustível também diminui óxidos de nitrogênio e material particulado.
Para o Instituto MBCBrasil, o estudo serve a quem decide, independentemente de quem governa. “O estudo não é plano de negócios para uma fábrica específica, mas uma plataforma técnica para orientar decisões, integrar o know-how brasileiro às discussões globais e acelerar a descarbonização da mobilidade pesada”, pontua Luzzi.
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