Opinião
E quem audita o “auditor”?
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Como pode um servidor público, proibido pela Constituição Estadual de gerir empresas, atuar como dono de escritório de contabilidade e ainda ostentar um padrão de vida que sugere enriquecimento ilícito? É, no mínimo, intrigante ver quem tanto prega “transparência” esquecer de aplicar a própria matemática em casa. Corre à boca pequena que o “especialista” em auditar números alheios tem evitado olhar para o próprio extrato, que apresentaria movimentações financeiras astronômicas e incompatíveis com o seu subsídio.
Seria cômico, se não fosse grave: um profissional da contabilidade que ignora as leis administrativas para lucrar por fora. Onde fica o rigor técnico de quem deveria dar o exemplo, mas prefere atuar nas sombras da ilegalidade? Antes de querer dar aula de gestão para a categoria, seria prudente que esse “fiscal” explicasse como sua evolução patrimonial — que aponta indícios de lavagem de dinheiro — sobreviveria a uma auditoria séria sobre a origem de seus recursos.
O rastro de irregularidades, contudo, não fere apenas a ética profissional, mas atinge diretamente o bolso e a tranquilidade de quem confiou em seus serviços. Há relatos preocupantes de colegas da categoria que se viram em situações críticas após contratarem o referido escritório. Por conta de declarações de Imposto de Renda fraudulentas, diversos profissionais enfrentam hoje o pesadelo da malha fina e são obrigados a pagar dívidas vultosas com a Receita Federal. O “especialista” que prometia facilidades entregou, na verdade, prejuízo e insegurança jurídica.
Chama a atenção que alguém com um histórico tão peculiar, incluindo o fato de ter sido alvo de buscas durante a Operação Pandora, ainda tente ditar regras de moralidade. Para quem não se recorda, as investigações daquela época já lançavam luz sobre os “mercadinhos” dentro das unidades prisionais; coincidentemente, o mesmo “fiscal” era o contador técnico da associação responsável por gerir esse comércio na Penitenciária Central do Estado, onde as contas sempre pareceram criativas demais para serem reais.
Quem atua no mercado contábil, mas mantém a vida financeira sob suspeita, não possui autoridade para auditar ninguém. O sol nasce para todos, mas a sombra da dúvida só persegue quem insiste em caminhar com o telhado de vidro.
Opinião
PF mira desembargador, deputado e advogado em operação contra venda de sentenças no TJMT
A Polícia Federal deflagrou, nesta segunda-feira (8), a Operação Gemini, em Cuiabá, tendo como alvos o desembargador Dirceu Santos, o deputado estadual Faissal Calil (PL) e o advogado Bruno Oliveira Castro. A investigação apura um suposto esquema de venda de decisões judiciais e lavagem de dinheiro no âmbito do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT).
Durante a operação, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados, além de buscas pessoais e da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático, autorizadas pela Justiça. Na ação, os agentes apreenderam relógios Rolex, armas e canetas de luxo.
O deputado estadual Faissal Calil teve o celular apreendido e afirmou à imprensa que a investigação não possui relação com seu mandato parlamentar. Ele também negou qualquer ligação com os demais investigados.
“Não houve nenhuma transação econômica minha com ele [desembargador]. Desde que virei deputado e saí do Tribunal de Justiça, eu perdi todo o meu contato e simplesmente me afastei”, declarou.
Segundo a Polícia Federal, os investigados poderão responder pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e advocacia administrativa — prática caracterizada quando um agente público utiliza o cargo para defender interesses particulares.
As investigações apontam que o desembargador contava com o apoio do advogado e do deputado para receber supostas vantagens indevidas, quitar dívidas familiares e realizar negociações imobiliárias. De acordo com a PF, as operações financeiras tinham como objetivo ocultar a origem dos recursos e dar aparência de legalidade às movimentações.
A análise das contas bancárias dos investigados identificou movimentações consideradas suspeitas, incluindo mais de R$ 3,2 milhões em depósitos e saques em dinheiro.
Os investigadores também apontaram transferências realizadas por empresas do agronegócio que possuem disputas judiciais em andamento no Tribunal de Justiça de Mato Grosso, sem justificativa comercial identificada até o momento.
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