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Expedição leva atendimento em saúde a ribeirinhos de Rondônia

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Em uma manhã tranquila de maio, centenas de pessoas se agrupavam em torno da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Calama, um distrito da capital rondoniense, Porto Velho. Elas aguardavam as equipes da expedição Barco Ciência, Saúde e Cidadania, que prestariam atendimento em diversas áreas, em especial de saúde.

A iniciativa, na sexta edição, foi um momento em que as comunidades ribeirinhas de Porto Velho puderam ter acesso aos mais diversos serviços. A maioria deles inexistente nas proximidades ou, quando disponível, só por meio de viagens extenuantes, que podem durar até nove horas.

A iniciativa foi promovida entre os dias 20 e 24 de maio, pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Pesquisa e Conhecimento de Excelência da Amazônia Ocidental e Oriental (INCT-CONEXAO), rede nacional e internacional de pesquisadores, instituições científicas, empresas e organizações sociais, em parceria com a faculdade Afya São Lucas, de Porto Velho. No barco, mais de 100 pessoas, entre estudantes, professores e pesquisadores, realizaram ações voltadas à saúde, educação e cidadania.
 


Porto Velho - 31/05/2026 - Sexta edição da expedição Ciência, Saúde e Cidadania, que presta atendimento em Calama, distrito de Porto Velho (RO). Foto: Nubia Abe

Sexta edição da expedição Barco Ciência, Saúde e Cidadania, que presta atendimento em Calama, distrito de Porto Velho (RO) – Foto: Nubia Abe

A expedição percorreu o Rio Madeira, na região conhecida como Baixo Madeira, visitando as comunidades de Calama, Nazaré e São Carlos e levando atendimento direto à população, além de atividades educativas e científicas. Nos dois primeiros dias, o barco atracou em Calama, a maior comunidade da região, onde vivem cerca de 2,3 mil pessoas.

Uma das pessoas que aguardavam atendimento é a agricultora familiar Vânia Caetano dos Reis, de 52 anos, moradora da comunidade Gleba Rio Preto. À Agência Brasil ela contou que para chegar ao local de atendimento levou mais de duas horas e meia navegando pelo rio em uma rabeta (tipo de embarcação pequena). Mas, antes, até chegar à beira do rio, levou mais de duas horas, percorrendo a cavalo uma estrada de cerca de 12 quilômetros (km).

“Para a gente vir no posto para fazer exame de malária, um exame comum, a gente tem que vir até Calama. É essa a dificuldade, sair de lá para ser atendida e, quando vem um barco desse, com todo tipo de exame e de consulta, a gente tem que aproveitar. Até porque nem sempre a gente fica sabendo. Como é longe, a gente tem essa dificuldade e, às vezes, quando a gente chega, o barco já foi embora”, relatou.

Para conseguir chegar à comunidade de Calama, Vânia contou com a ajuda de uma vizinha, a mesma que fez o aviso da chegada do barco.

“Ela soube e eu falei assim: avisa o dia certinho que a gente vai. Eu vim para a casa dela um dia antes e de lá a gente saiu, porque é muito longe. Se eu fosse sair de casa, eu teria que sair meia-noite para chegar aqui umas 7h, e era capaz de nem ter mais vagas”, continuou.
 


Porto Velho - 31/05/2026 -  A agricultora familiar Vânia Caetano dos Reis  faz exames oftalmológicos disponibilizados pela expedição Ciência, Saúde e Cidadania.Foto: Nubia Abe

A agricultora familiar Vânia Caetano dos Reis faz exames oftalmológicos disponibilizados pela expedição Barco Ciência, Saúde e Cidadania – Foto: Nubia Abe

No dia anterior, a agricultora familiar já havia feito o mesmo trajeto para se consultar.

“Ontem eu vim ser atendida por odontologia e o clínico geral, passei também no dentista, por aqui tudo, passei nas belezas também”, disse, se referindo ao atendimento em estética, um dos serviços prestados à população. “Passei também ou também no oftalmologista. Eu sofro da vista desde jovem e como eu mexo com animal, eu andando de cavalo, meu óculos caíam e quebraram”, completou.

Nesta edição, os exames de vista foram os mais procurados, a partir de demandas prévias da população e dada a falta de oftalmologistas para atender as comunidades ribeirinhas. Mais de 200 atendimentos oftalmológicos foram realizados ao longo da ação. Além disso, uma parceria com uma ótica de Porto Velho resultou na doação de 300 óculos de grau.

“Eu consegui e vão sair os óculos que vou receber no dia 12 [de junho]”, comemorou Vânia.
 


Porto Velho - 31/05/2026 - A dona de casa Edna Miranda de Sousa e a neta Bianca Sousa de Castro foram atendidas por equipes da expedição Ciência, Saúde e Cidadania. Foto: Nubia Abe

A dona de casa Edna Miranda de Sousa e a neta Bianca Sousa de Castro foram atendidas por equipes da expedição Barco Ciência, Saúde e Cidadania – Foto: Nubia Abe

Quem também buscou atendimento foi a dona de casa Edna Miranda de Sousa, de 52 anos, que levou a neta Bianca Sousa de Castro, de 5 anos. Moradora da comunidade São Francisco, nas proximidades de Calama, ela contou que na comunidade onde vive não tem posto de saúde, apenas uma escola de ensino fundamental.

“Eu queria saber se ela está com anemia ou alguma coisa, fazer um acompanhamento médico. A Bianca também reclama de pequenas manchas no corpo e pequenas verrugas nas pálpebras”, relatou. “Dói o olho e coça, coça bem muito, bem muito”, resumiu a menina.

O atendimento prestado para Edna e Bianca mostra como foi o esquema programado para atender a população ribeirinha. O pró-reitor de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Internacionalização da Afya São Lucas, Wuelison Lelis de Oliveira, disse que a operação foi montada para atender a demanda espontânea das comunidades.

Segundo Oliveira, quem chegava lá passava primeiramente por uma triagem para identificar o tipo de atendimento. Nessa etapa, já eram aferidos o peso, altura, índice de massa corporal (IMC), pressão arterial e outras necessidades do paciente. Na sequência, a pessoa era direcionada para o atendimento indicado.

“Dividimos o fluxo essencial pensando nos atendimentos que estamos trazendo, tanto atendimento médico, enfermagem, oftalmológico, biomédico, nutrição, fonoaudiologia, fisioterapia, psicologia, educação física e a área jurídica também”, disse. “Mas, se hoje a prioridade dele [paciente] é a consulta médica, então primeiro ele passa na consulta médica e depois é encaminhado para o oftalmo”, disse.
 


Porto Velho - 31/05/2026 -O pró-reitor de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Internacionalização da Afya São Lucas, Wuelison Lelis de Oliveira, conversa com o venezuelano Luiz Antônio Prado, durante  atendimento na expedição Ciência, Saúde e Cidadania. Foto: Nubia Abe

O pró-reitor de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Internacionalização da Afya São Lucas, Wuelison Lelis de Oliveira, conversa com o venezuelano Luiz Antônio Prado, durante atendimento na expedição Barco Ciência, Saúde e Cidadania –  Foto: Nubia Abe

Para prestar todo esse atendimento, a Afya disponibilizou uma série de equipamentos, a exemplo de cadeiras odontológicas, instrumentos para diagnosticar a saúde ocular e equipamentos para exames laboratoriais, com coleta de material e resultado de alguns exames saindo quase que imediatamente. Todo o equipamento transportado no barco da expedição.

Quem gostou foi o pequeno Azafi Pitangui, que recebeu atendimento odontológico, para retirada de cárie e limpeza dental. Morador de Calama, ele ficou empolgado com os atendimentos.

“Gostei do dentista, mas não chorei, não! Ele só colocou a massinha três vezes e depois não saiu, não”, relatou o pequeno, que disse ainda querer ser médico. “Porque é muito legal ajudar as outras pessoas, é bom e faz bem.”

Distância é desafio

Para o estudante de odontologia Jonatas Ponce, a participação na expedição foi uma oportunidade de aprendizado e de contato com uma realidade desafiadora. Auxiliando as crianças a fazerem escovação dental de maneira correta, Jonatas se disse espantado com o cenário de dificuldade de acesso a itens comuns, como escovas de dente, creme dental, medicações e água tratada e fluoretada.

“A logística é muito complicada. Para o atendimento, eu mesmo trouxe apenas uma pequena mochila com roupa, o resto foi tudo material, instrumental, medicamento, porque a gente sabe que as pessoas às vezes não têm acesso a coisas consideradas básicas, como uma farmácia, onde você compra lá uma dipirona, ibuprofeno, etc. E aqui é difícil, o acesso para eles é muito restrito, depende do meio fluvial.”

A distância é um grande desafio para o atendimento das comunidades ribeirinhas de Porto Velho e da Amazônia, de maneira geral. Com uma área territorial de 34.090,952 quilômetros quadrados, Porto Velho é a maior capital em extensão territorial do país, sendo maior que os estados do Alagoas e Sergipe, e até maior que países inteiros, como a Bélgica.

Em linha reta, a distância entre a sede administrativa do município e Calama, a principal comunidade ribeirinha, supera os 200 km e cruza a floresta. A principal forma de deslocamento é a fluvial, com trajetos que podem levar de nove a 15 horas, dependendo do sentido – subindo ou descendo o Rio Madeira.
 


Porto Velho - 31/05/2026 -

Moradores de Calama, distrito de Porto Velho (RO), e regiões próximas são atendidos por equipes da expedição Barco Ciência, Saúde e Cidadania – Foto: Nubia Abe

Uma alternativa é cruzar a divisa com o Amazonas se dirigindo Humaitá, em uma viagem que pode cerca de duas horas e meia. De lá, pegar uma embarcação para subir o Rio Madeira. A viagem leva cerca de uma hora e 20 minutos a bordo do tipo mais rápido de embarcação, conhecido como voadeira.

No caminho, a embarcação passa por pequenas comunidades em que ribeirinhos vivem praticamente isolados e cujo meio de transporte para resolver todas as tarefas do dia a dia é o barco.

Grandes balsas também cruzam com os pequenos barcos. Elas levam caminhões com soja e outros produtos do agronegócio. Também transportam outros tipos de mercadoria. Durante o trajeto, também é possível observar dragas pertencentes ao garimpo ilegal, que passam impunemente.

Diante desse cenário, é fácil entender por que o deslocamento é um grande gargalo para essas populações. É o caso do venezuelano Luiz Antônio Prado, de 32 anos, que mora há nove anos em Glebas, uma comunidade próxima de Calama. À Agência Brasil, ele relatou a rotina de dificuldades para a população ter acesso à saúde.

“[Para] quem que mora na beira do rio e tem uma emergência fica difícil. Tem que colocar na voadeira. E nem sempre tem um ‘motorista’”, disse. “Para eu sair daqui para a cidade é muito difícil.”
 


Porto Velho - 31/05/2026 -

 O venezuelano Luiz Antônio Prado e a filha Gorete Maria Prado foram atendidos por equipes da expedição Barco Ciência, Saúde e Cidadania – Foto: Nubia Abe

Em muitas ocasiões, o destino da população é procurar o município amazonense de Humaitá, mais próximo da comunidade que o centro de Porto Velho. Sentindo uma espécie de taquicardia, Luiz Antônio se consultou para saber qual o seu problema.  

Ele estava acompanhado da filha, Gorete Maria Prado, de 15 anos, que é diabética e que recebeu acompanhamento para controlar a doença.

“Minha glicose estava acima de 600 e eu cheguei e já e me colocaram rapidinho no atendimento, começaram a me tratar”, contou a adolescente, que prometeu seguir as orientações médicas para controlar o diabetes.

Além das consultas, avaliações e exames na proximidade da UPA, as equipes da expedição realizaram ainda atendimentos domiciliares para a população com dificuldade de locomoção, como no caso do ex-seringueiro Manoel Dourado da Silva, de 88 anos. O ribeirinho sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) e tem dificuldade de mover o lado direito do corpo. Com os pés inchados e pressão alta, o idoso também tem problemas de audição e desenvolveu diabetes.
 


Porto Velho - 31/05/2026 -

O ex-seringueiro Manoel Dourado da Silva é atendido por equipes da expedição Ciência, Saúde e Cidadani – Foto: Nubia Abe

Atendido pela equipe de saúde da expedição, comandada pelo médico e professor da Afya São Lucas Gabriel Aurélio de Paiva, Manoel teve a pressão aferida e recebeu medicação para pressão e diabetes. As instruções foram passadas para a filha dele, Maria Aires, com quem ele mora.

“É muito bom quando as pessoas vêm, porque aqui é difícil ter um acompanhamento médico, porque ele não pode mais caminhar e daqui até lá [local do atendimento] é uma distância. As pessoas querem levar de moto, mas ele não consegue, porque  tem uma perna que não mexe direito”, disse Maria, que foi fazer uma consulta para controlar o diabetes.

O professor confirmou que os atendimentos mostraram que existe uma grande parcela da população que sofre com pressão alta e diabetes.

“O básico que a gente tem mais visto é a famosa diabetes, pressão alta também tem demais, é meio descompensado. Pode ser uma falha de comunicação entre  médicos e pacientes, já que muitas das vezes eles têm a receita mas não tomam medicamento, muitas vezes por questão de tradição. Eles acham que apenas tomar um chá vai resolver o problema e só tomam a medicação quando estão passando muito mal. Daí que a gente tem que ficar reforçando a questão do cuidado”, disse.
 


Porto Velho - 31/05/2026 -  Médico e professor da Afya São Lucas Gabriel Aurélio de Paiva comanda equipe de saúde da expedição Ciência, Saúde e Cidadania. Foto: Nubia Abe

O médico e professor Gabriel Aurélio de Paiva (de pé à esquerda) comanda a equipe de saúde da expedição Ciência, Saúde e Cidadania – Foto: Nubia Abe

O professor contou à Agência Brasil que antes da expedição juntou um grupo de estudantes para pensar e planejar a atuação da equipe. Segundo ele, iniciativas como essa são uma grande oportunidade para os estudantes “saírem da bolha” e encontrarem o “mundo real”.

“Para os alunos é uma experiência, enfim, do mundo real. É um mundo real, porque lá no ambulatório eles ficam numa bolha muito grande. Eu orientei eles, disse que a gente faria um atendimento básico, fazer acompanhamento junto com o ACS [agente comunitário de saúde]. E, toda vez que tem essa oportunidade, eu sempre trago eles, para eles verem que tem outra realidade além daquela que eles vivem todo dia”, afirmou.

*O repórter viajou a convite da faculdade Afya

Fonte: EBC Saúde

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Entenda a mola gestacional, que pode evoluir para câncer de placenta

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Há cerca de dois anos, a terapeuta ocupacional Daiana Nascimento recebeu uma notícia muito aguardada: estava grávida, depois de um bom tempo de tentativas e espera. Mas logo descobriu que não viveria o que tanto sonhou. 

“Em menos de três dias, eu vivi o dia mais feliz e o dia mais triste da minha vida. E, menos de um mês depois, eu estava com um câncer gerado de uma gestação. Foi muito difícil. A gente nunca imagina que vai passar por isso”, ela lembra. 

No primeiro ultrassom, Daiana descobriu que a gravidez se tratava de uma “mola”, nome popular da doença trofoblástica gestacional. Trata-se de um tumor benigno, que em até 20% dos casos pode evoluir para um câncer de placenta maligno, como ocorreu com a terapeuta. 

 


Rio de Janeiro (RJ), 08/07/2026 - A paciente , Daiana Nascimento, concedeu entrevista para a reportagem na Maternidade Escola da UFRJ, em Laranjeiras. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 08/07/2026 - A paciente , Daiana Nascimento, concedeu entrevista para a reportagem na Maternidade Escola da UFRJ, em Laranjeiras. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Daiana Nascimento contou em entrevista à Agência Brasil sobre seu tratamento após mola gestacional. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil

O que é mola gestacional?

Tudo começa com um erro de fertilização. Nos casos de mola incompleta, um espermatozóide com o DNA duplicado ou dois espermatozóides fecundam um óvulo normal, gerando uma placenta imperfeita, acompanhada de um embrião com anomalias genéticas incompatíveis com a vida. 

Já nos casos de mola completa, um óvulo sem DNA é fecundado por um espermatozóide dos mesmos tipos anteriores, gerando apenas uma placenta anormal, sem embrião.

Nas duas situações, a gestação precisa ser interrompida e a mola, retirada, sob o risco de provocar sangramento uterino e alterações na tireóide e pressão sanguínea. 

Mas o efeito mais grave da doença trofoblástica é o câncer de placenta, que ocorre quando células da mola se instalam no útero. Isso acontece com menos de 5% das mulheres com mola parcial, mas, entre aquelas com mola completa, uma em cada cinco desenvolvem câncer. Em casos mais agressivos, pode haver metástase, principalmente no pulmão. 

Quem explica é o professor de obstetrícia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Antônio Braga. Ele coordena o Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da Maternidade Escola da UFRJ, o terceiro centro mais importante do mundo em atendimento e pesquisa sobre mola. 

“Uma em cada 200 a 400 mulheres que engravidam no Brasil vai ter essa doença. Nos Estados Unidos, essa taxa é de uma a cada mil mulheres… Na Inglaterra, é de uma a cada duas mil. Tem investigação sobre as razões pra essa diferença. Fatores genéticos, imunológicos, alimentares… essas são as principais suspeitas. Mas nada ainda está bem estabelecido”, destaca. 

De acordo com Braga, a maioria das pacientes descobre a mola da mesma forma que Daiana, ao fazer um ultrassom de rotina depois de constatar a gestação por um exame de sangue ou urina. E, assim como a terapeuta, a maior parte dessas mulheres nunca tinha ouvido falar sobre a doença antes, o que não significa que ela seja rara. 

Somente o ambulatório da Maternidade Escola, ligado à rede HU Brasil, atende cerca de 80 pacientes com mola por semana, pelo Sistema Único de Saúde. Além de moradoras da própria cidade do Rio de Janeiro, há muitas mulheres que vêm de outras cidades fluminenses e até de outros estados. 

Aproximadamente 30% delas têm plano de saúde e, mesmo assim, fazem o tratamento na unidade pública.

“É fundamental que essas mulheres sejam atendidas em um centro de referência. Um dos nossos estudos mostrou que quando elas são acompanhadas fora de um centro de referência, elas têm de 10 a 20 vezes mais chance de morrer”, salienta o médico e pesquisador. 

 


Rio de Janeiro (RJ), 26/05/2026 – Fachada da Maternidade Escola UFRJ, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 26/05/2026 – Fachada da Maternidade Escola UFRJ, na zona sul do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Fachada da Maternidade Escola da UFRJ, na zona sul do Rio de Janeiro. Unidade é referência no tratamento da mola gestacional Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Acompanhamento

A retirada da mola por aspiração uterina é só o começo de um acompanhamento criterioso. Um exame histopatológico vai determinar se a mola é parcial ou completa, e, a partir disso, a paciente passará por consultas periódicas para avaliação geral e medição do HCG, hormônio produzido na gestação.

“Esse é o único câncer da espécie humana que o diagnóstico não é histopatológico, não se faz biopsia. O diagnóstico é dado pelo hormônio da gravidez, esse que é o marcador tumoral da doença”, explica Braga. 

Com a interrupção da gravidez, o correto é que o hormônio caia até se estabilizar nos níveis normais. Se isso não acontecer, é porque as células da mola migraram para o útero, desenvolvendo o câncer. O tratamento do tumor maligno é feito com quimioterapia. 

“Felizmente, grande parte das mulheres que são adequadamente tratadas se curam. E, uma vez curadas, podem inclusive engravidar novamente. Fazem o pré-natal aqui conosco e tem seus bebezinhos aqui para completar suas famílias”, esclarece o chefe do ambulatório de mola do hospital escola. 

Essa é a esperança de Daiana e do marido, Lucas Felipe. “É um sonho que foi adiado por dois anos. Mas que vai vir, se Deus quiser!”, ela diz. 

A terapeuta terminou as sessões de quimioterapia e está com o HCG normalizado, o que indica que está curada do câncer. Mas ainda precisa esperar alguns meses para engravidar, já que um teste de gravidez positivo pode mascarar o retorno da doença.

Histerectomia

Pacientes mais velhas, que já tiveram filhos ou que não pretendem tê-los, podem receber a recomendação de passar por uma histerectomia, a retirada cirúrgica do útero.

Foi o caso de Mônica Rosa do Amaral Pelizari, que já tinha uma filha e descobriu a mola após sofrer um abortamento espontâneo, aos 45 anos.  Além de viver uma perda gestacional em uma idade limite, Mônica também desenvolveu o câncer de placenta cerca de um mês depois.

“Sinceramente, eu não conseguia nem pensar no luto, eu só pensava no câncer, porque câncer, para mim, era um nome terrível. Eu fiquei apavorada, porque eu nunca tinha ouvido falar em mola”, ela lembra. 

 


Rio de Janeiro (RJ), 08/07/2026 - A paciente Mônica Rosa do Amaral Pelizari, concedeu entrevista para a reportagem na Maternidade Escola da UFRJ, em Laranjeiras. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 08/07/2026 - A paciente Mônica Rosa do Amaral Pelizari, concedeu entrevista para a reportagem na Maternidade Escola da UFRJ, em Laranjeiras. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A paciente Mônica Rosa do Amaral Pelizar. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Apesar disso, ela conta que fez todo o tratamento de forma “leve”, graças ao apoio da família e dos profissionais que a atenderam.

“Não teve um dia que eu não tivesse pessoas queridas comigo. Eu e as minhas irmãs íamos pra clínica como se fosse um passeio, todas de lenços diferentes. Então, foi um momento atribulado, mas não angustiado”, acrescenta. 

Acolhimento

Tudo isso aconteceu em 2018 e 2019. Após a cirurgia e as sessões de quimioterapia, Mônica se curou do câncer, mas até hoje faz consultas anuais no ambulatório para monitorar seu estado de saúde e seus níveis hormonais.

O hospital também oferece atendimento social e psicológico, além de serviços de acolhimento, como musicoterapia. A médica do ambulatório Gabriela Paiva reforça a importância desse suporte:

“A gestação vem com expectativas, não só da paciente, mas também da parceria, da família… Então, elas chegam aqui muito fragilizadas. Sempre, na primeira consulta, a gente frisa que isso acontece por acaso, que não é culpa dela e que ela não está sozinha”. 

Lucas Felipe, marido de Daiana, confirma que o impacto da perda gestacional atinge a toda família, especialmente quando é procedido de um diagnóstico de câncer. Ele acrescenta que as pessoas próximas das pacientes também precisam cuidar da saúde mental, inclusive para apoiá-las da maneira correta

“Eu tentei me manter o mais pé no chão possível, do lado dela, porque eu pude ver ali, no dia-a-dia, que foi realmente um soco no estômago pra ela, e pra mim também, mas eu achava que deveria segurar. Até que a gente vê que precisa saber lidar com as nossas emoções e que isso não significa reter o que a gente sente”, ele complementa. 

 


Rio de Janeiro (RJ), 08/07/2026 - A paciente , Daiana Nascimento e seu marido Lucas Felipe, concederam entrevista para a reportagem na Maternidade Escola da UFRJ, em Laranjeiras. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 08/07/2026 - A paciente , Daiana Nascimento e seu marido Lucas Felipe, concederam entrevista para a reportagem na Maternidade Escola da UFRJ, em Laranjeiras. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A paciente Daiana Nascimento e seu marido, Lucas Felipe. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Quem desenvolve uma mola também acaba necessitando de muito apoio logístico e financeiro. “A minha vida parou completamente para eu fazer o tratamento, mudou todos os meus planejamentos. Só agora eu consegui voltar a trabalhar um dia na semana, pra ir aumentando aos poucos”, conta Daiana.

Como ela mora em São Pedro da Aldeia, a 141 km da capital, precisou utilizar o transporte médico da prefeitura de sua cidade para comparecer às muitas consultas e sessões de quimioterapia, mas acabava perdendo um dia inteiro a cada viagem. Há alguns meses, descobriu que tinha direito à gratuidade nos ônibus intermunicipais, o que facilitou sua rotina. 

“Essas mulheres vão ficar, no mínimo, seis meses vindo aqui. É cansativo. E, às vezes, a gente tem que dar a notícia de que a mola virou um câncer. Por isso, a gente sempre pede para vir com um acompanhante. Mas as outras pacientes também ajudam no acolhimento. A mulher descobre que tem uma doença que ela nunca ouviu falar, mas aqui ela vê que tem mais gente passando por isso”, complementa a médica Gabriela Braga. 

Fonte: EBC Saúde

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