Economia
Sétimo Continente cresce e chega ao sangue humano
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A poluição plástica nos oceanos é um dos maiores desafios ambientais da atualidade. Com a produção global de plástico em constante crescimento e taxas de reciclagem ainda insuficientes, toneladas de resíduos acabam descartadas em rios, mares e ecossistemas ao redor do mundo, gerando impactos que vão muito além da degradação ambiental.
O problema, porém, já não se restringe aos oceanos. Nos últimos anos, a comunidade científica passou a investigar os efeitos da presença de microplásticos no organismo humano, revelando evidências cada vez mais consistentes de que essas partículas estão entrando na cadeia alimentar e se acumulando em diferentes tecidos e órgãos.
Pesquisas publicadas nos últimos dois anos confirmaram a presença de microplásticos no sangue, na placenta e no cérebro de seres humanos, resultado do acúmulo crescente de plástico nos oceanos.
A mancha de detritos no Pacífico, apelidada de “Sétimo Continente”, já cobre 1,6 milhão de quilômetros quadrados e contém cerca de 1,8 trilhão de fragmentos plásticos, segundo dados do The Ocean Cleanup.
O achado mais recente é de fevereiro de 2025: uma equipe da Universidade do Novo México, liderada pelo toxicologista Matthew Campen, publicou na Nature Medicine um estudo que comparou amostras de cérebro humano coletadas em autópsias de 2016 e de 2024 e encontrou um aumento de cerca de 50% na concentração de microplásticos no córtex frontal em apenas oito anos.
Um ano antes, pesquisadores já haviam associado, no New England Journal of Medicine, a presença de micro e nanoplásticos em placas carotídeas a um risco de infarto, AVC ou morte mais de quatro vezes maior, achado que se soma a estudos de 2021 e 2022, ambos na Environment International, que identificaram partículas plásticas na placenta e no sangue humanos.
O engenheiro e especialista em economia circular, Marcelo Souza, que também preside o Instituto Nacional de Economia Circular (Inec), afirma que os impactos da “ilha de plástico” estão além dos mares. “O Sétimo Continente não fica no Pacífico. Ele fica em nossas placas ateroscleróticas, em nossas placentas, em nossos córtices frontais e nas cadeias alimentares que sustentam a vida moderna”, pontua Souza.
A mancha que inspirou a expressão é tecnicamente chamada de Great Pacific Garbage Patch (GPGP) e foi mapeada com precisão em 2018 por Lebreton et al., na Scientific Reports: mais de 46% de sua massa é composta por redes e equipamentos de pesca abandonados, que continuam capturando peixes e mamíferos marinhos décadas depois de perdidos no mar.
“O oceano não está apenas engolindo o que produzimos para descartar. Está engolindo também os instrumentos com os quais o saqueamos”, diz Souza. A GPGP, porém, não está isolada: um levantamento do 5 Gyres Institute, publicado em 2023 na PLOS ONE, estimou que entre 82 e 358 trilhões de partículas plásticas flutuam hoje na superfície dos oceanos, com crescimento acentuado a partir de 2005 — e uma revisão na Science Advances recalculou o estoque total de plástico marinho, incluindo o que está depositado no fundo do mar, em 263 milhões de toneladas.
A exposição humana não depende do consumo de frutos do mar. Um estudo de 2024 da Universidade Columbia, na PNAS, identificou em média 240 mil partículas de micro e nanoplásticos por litro de água engarrafada, enquanto um levantamento da Ocean Conservancy com a Universidade de Toronto encontrou microplásticos em 88% de 16 fontes proteicas analisadas nos Estados Unidos, de carne bovina a substitutos vegetais, com exposição estimada em até 3,8 milhões de partículas por ano para um adulto americano.
Por trás desses números está uma produção que segue crescendo sem controle. Segundo Geyer, Jambeck e Lavender Law (Science Advances, 2017), apenas 9% de todo o plástico já fabricado pela humanidade foi reciclado. As negociações de um tratado global contra a poluição plástica, conduzidas pela UNEP, terminaram sem acordo em agosto de 2025, em Genebra, e, sem regulação, a produção anual pode saltar dos atuais 435 milhões de toneladas para 1,7 bilhão até 2060, com custo cumulativo estimado em US$ 281 trilhões, segundo o Fórum Econômico Mundial.
Para Souza, a saída passa por tratar a reciclagem como infraestrutura, redesenho de produtos, logística reversa com Responsabilidade Estendida do Produtor, já em vigor nas Filipinas, e investimento em reciclagem mecânica e química, mercado que a OECD projeta superar US$ 60 bilhões por ano até 2030. “Não estamos apenas poluindo o planeta. Estamos transformando o próprio corpo humano em extensão física do lixo que produzimos”, resume.
Economia
“melhores práticas” recomendam não reagir a choques de oferta
A piora no cenário para a inflação não impediu o Banco Central (BC) de manter o ciclo de redução dos juros. O Comitê de Política Monetária (Copom) justificou o corte na taxa básica de juros, a Selic, sob a perspectiva de que as “melhores práticas” de política monetária recomendam não reagir integralmente a variações de preços geradas por choques de oferta, que são eventos inesperados .
A decisão consta na ata da última reunião , divulgada nesta terça-feira (23). No encontro, na semana passada, o colegiado cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, passando de 14,5% ao ano para 14,25% ao ano – o terceiro corte consecutivo desde março. De junho de 2025 a março deste ano, a Selic ficou em 15% ao ano, o maior nível em quase 20 anos.
De acordo com o documento, essas flutuações de preços envolvem incertezas relevantes, em especial, as pressões do conflito armado no Oriente Médio sobre os preços globais de petróleo e combustíveis, bem como os impactos climáticos ainda em projeção do fenômeno El Niño .
“No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”, diz a ata.
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Inflação oficial
Em maio, o preço dos alimentos pressionou a inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que fechou em 0,58%.
O IPCA acumulado em 12 meses ficou em 4,72%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já fora da meta de inflação, que pode variar de 1,5% a 4,5%.
Na ata, a autoridade monetária pontuou que o atual cenário inflacionário de curto prazo é desafiador e tem sido pressionado por leituras mais altas do IPCA corrente.
Contudo, o BC enfatizou que a adoção de trajetórias de Selic menos discrepantes em relação às previstas pelos analistas de mercado é mais adequada por evitar a indução de volatilidade excessiva nos preços dos ativos financeiros e nos agregados macroeconômicos.
A previsão do mercado financeiro para o IPCA está em 5,33% este ano e 4,15% em 2027.
Durante o encontro, o Copom debateu simulações que contemplavam diferentes combinações de momentos de pausa e retomada do ciclo de juros. Nessas projeções, trajetórias alternativas mostraram menor flutuação de produto e revelaram-se compatíveis com uma suavização macroeconômica, garantindo a convergência da inflação para o centro da meta no primeiro trimestre de 2028, que passou a ser o horizonte relevante oficial do BC.
Apesar da flexibilização gradual, a ata reafirma uma postura de firme cautela. Diante da resiliência da atividade econômica doméstica, que continua surpreendendo positivamente e dificultando a desaceleração da inflação de serviços, os diretores indicaram que os passos futuros da taxa de juros serão ajustados a depender dos novos dados econômicos.
“No contexto atual de incerteza em níveis historicamente elevados, com riscos assimétricos na direção altista para os preços, o Comitê reitera que a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário, de forma a assegurar a convergência da inflação à meta”, diz o BC.
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