Economia
Quem vai cuidar dos pais em famílias cada vez menores?
Economia
O Brasil vive uma mudança simultânea na estrutura das famílias e no perfil etário da população. Dados do Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que as famílias formadas por casais com filhos deixaram de ser maioria: esse arranjo, incluindo casais com filhos e parentes, caiu de 55,8% em 2000 para 45,2% em 2022. O levantamento também aponta que o número de moradores sozinhos triplicou no período, chegando a 13,7 milhões.
A redução do número de filhos reforça esse cenário. Segundo o Censo Demográfico 2022: Fecundidade e Migração, a taxa de fecundidade total chegou a 1,55 filho por mulher, a menor já registrada no país. Ao mesmo tempo, as Projeções da População do IBGE indicam que a proporção de pessoas com 60 anos ou mais, que era de 15,6% em 2023, deve chegar a 37,8% em 2070. A combinação entre famílias menores, mais pessoas vivendo sozinhas e idosos mais longevos amplia uma pergunta que tende a aparecer com mais força nos próximos anos: quem vai cuidar dos pais?
Durante décadas, o cuidado com idosos foi absorvido principalmente dentro da própria família. Irmãos se revezavam em consultas, compras, alimentação, medicamentos e companhia. Em muitas casas, filhas, esposas, noras ou outros parentes assumiam a maior parte da rotina. Esse modelo dependia de famílias maiores, proximidade geográfica e disponibilidade de tempo.
Hoje, um filho único pode precisar acompanhar dois pais idosos enquanto trabalha, cuida dos próprios filhos e administra a casa. Mesmo quando há irmãos, eles podem morar longe ou ter jornadas extensas. Com isso, o cuidado deixa de ser uma responsabilidade naturalmente dividida e passa a depender de planejamento.
A longevidade não significa, necessariamente, dependência. Muitos idosos permanecem autônomos por anos. A necessidade de apoio costuma surgir aos poucos: uma consulta, um remédio esquecido, medo de tomar banho, alimentação irregular, dificuldade para sair de casa. Uma queda, internação ou uma piora cognitiva pode acelerar esse processo.
A pesquisadora Ana Amélia Camarano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta no estudo ‘Cuidados para a população idosa e seus cuidadores‘ que a maior demanda por cuidados acontece em meio à menor oferta de cuidadores familiares, associada à fecundidade de sub-reposição, à maior participação das mulheres no mercado de trabalho e às mudanças na nupcialidade e nos arranjos familiares.
Na prática, a concentração do cuidado sobre uma única pessoa pode afetar trabalho, vida familiar, saúde emocional e a própria relação com o idoso. O familiar deixa de ser apenas filho, filha ou cônjuge e passa a organizar consultas, medicamentos, noites mal dormidas, deslocamentos, alimentação e emergências. Quando essa rotina não é compartilhada, a convivência pode ficar dominada por tarefas.
Para Bruno Butenas, fundador da Geração de Saúde, empresa de Curitiba especializada em cuidado domiciliar para idosos, o desafio não está na falta de afeto das famílias, mas na tentativa de sustentar uma rotina complexa com pouca rede de apoio. “Famílias menores têm menos pessoas para dividir tarefas que acontecem todos os dias. Quando apenas um filho assume consultas, medicação, alimentação, banho e supervisão, o desgaste cresce. Planejar apoio não diminui a presença da família; ajuda a preservar essa presença”, afirma.
O planejamento pode começar antes de uma emergência, com uma conversa objetiva sobre o que o idoso ainda faz sozinho, em quais momentos precisa de ajuda e quem pode assumir cada responsabilidade. Em famílias com irmãos, a divisão não precisa ser igual, mas precisa ser clara. Já filhos únicos, casais sem filhos ou idosos com parentes distantes tendem a precisar de uma rede de apoio pensada com mais antecedência, envolvendo familiares próximos, vizinhos de confiança, profissionais de saúde, serviços públicos ou cuidadores.
A Política Nacional de Cuidados, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, também trata o cuidado como uma responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, comunidade, setor privado e sociedade civil, com atenção à redução da sobrecarga sobre quem cuida.
O cuidador profissional pode integrar essa rede sem substituir a presença familiar. O apoio pode ocorrer por poucas horas, em plantões de 6, 12 ou 24 horas, ou de forma temporária após uma alta hospitalar, cirurgia, queda ou ausência do cuidador familiar. Entre as atividades estão o auxílio no banho, alimentação, mobilidade, companhia, acompanhamento em consultas e oferta de medicamentos conforme prescrição.
Segundo Butenas, nem toda família precisa começar com assistência integral. “Algumas horas bem definidas já ajudam a proteger o idoso e a organizar a casa. O cuidador assume tarefas que exigem presença e constância, enquanto a família mantém o vínculo, participa das decisões e deixa de viver em estado permanente de urgência”, explica.
A pergunta sobre quem vai cuidar dos pais nos próximos anos não terá uma única resposta. Em famílias menores, ela dependerá de conversas, divisão de responsabilidades, de uma rede de apoio e de planejamento antes da crise. Organizar essa estrutura pode proteger o idoso, reduzir a sobrecarga e manter a convivência familiar ligada ao afeto, não apenas às tarefas.
Para conhecer alternativas de cuidado domiciliar e acompanhamento de idosos em diferentes momentos da rotina, basta acessar o site da Geração de Saúde em www.gscuidadoresdeidosos.com.br.
Economia
Moura se prepara para fornecer BESS para vencedoras do LRCAP
A Moura prevê investir cerca de R$ 200 milhões para atuar como fornecedora no primeiro Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP), voltado a sistemas de armazenamento de energia em baterias, conhecidos pela sigla em inglês BESS (Battery Energy Storage Systems). Em parceria com a chinesa CATL, líder global em tecnologias de armazenamento, a companhia disponibilizará os sistemas para as empresas que disputarão a rodada nacional de Armazenamento, marcada para 2 de dezembro e destinada a projetos com conteúdo local.
O histórico da Moura em credenciamento de equipamentos antecede o novo leilão. Seu BESS destinado ao mercado comercial e industrial já possui credenciamento no FINAME desde 2024. O FINAME, instrumento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiamento de máquinas e equipamentos, exige comprovações relativas à fabricação nacional.
O governo federal estabeleceu requisitos específicos para a rodada nacional de Armazenamento. Os contratos terão prazo de 15 anos, com início do suprimento previsto para agosto de 2028. O modelo inclui exigências de conteúdo local e de desenvolvimento nacional de componentes estratégicos. A Moura já consta na relação do BNDES como fabricante de sistemas de armazenamento para o certame.
Para a Moura, conteúdo local deve representar atividade industrial efetiva, e não apenas a importação de sistemas prontos. Engenharia, integração, montagem, testes e serviços realizados no Brasil contribuem para desenvolver fornecedores, gerar oportunidades de trabalho e criar capacidade técnica próxima dos projetos. Em contratos de 15 anos, essa presença também pode reduzir a exposição a riscos logísticos e facilitar manutenção e suporte. Para os investidores que disputarão o leilão, produtos elegíveis ao FINAME podem ampliar as alternativas de crédito, sujeitas às condições de cada operação.
A parceria com a CATL une a tecnologia e a escala internacional da empresa chinesa à experiência industrial e de engenharia da Moura. A CATL aporta sua tecnologia de armazenamento de energia, enquanto a Moura é responsável pela industrialização e integração local dos sistemas. A parceria foi estruturada para atender às exigências de conteúdo local previstas para o leilão.
A capacidade de fornecimento anunciada pela Moura para atender às empresas participantes do leilão, acima de 8 GWh, está associada à estratégia de expansão de uma base produtiva e técnica já existente. A companhia produz o Moura BESS em Belo Jardim (PE), enquanto a unidade de Itapetininga (SP) concentra suporte técnico e pós-venda de soluções em lítio. Com quase 70 anos dedicados às tecnologias de acumulação de energia, a Moura iniciou o desenvolvimento de BESS em meados da década de 2010 e apresentou o Moura BESS em 2019.
Hoje, reúne experiência em mais de 40 projetos instalados no Brasil, com aplicações em indústria, agronegócio, saúde, saneamento e entretenimento, além do setor de geração, transmissão e distribuição de energia. O investimento de cerca de R$ 200 milhões inclui expansão recente e um novo ciclo de ampliação e modernização fabril, para que o complexo produtivo da Moura em Belo Jardim (PE) esteja pronto para atender projetos de grande porte.
A Moura considera relevante para o desenvolvimento do setor o anúncio feito pelo Ministério de Minas e Energia no fim de setembro sobre a realização de leilões adicionais nos próximos anos. O cronograma divulgado para o período de 2027 a 2029 prevê três certames abertos a soluções de armazenamento em baterias. A companhia afirma que a previsibilidade na demanda é fundamental para a realização de investimentos ainda maiores e para atender às agendas de conteúdo local. Um calendário recorrente de contratação permite à indústria planejar a ampliação da capacidade fabril, a nacionalização progressiva de componentes e a formação de profissionais especializados.
A combinação de experiência industrial, tecnologia e presença local também é estratégica para a segurança dos investimentos. Projetos de armazenamento precisam funcionar com confiabilidade durante muitos anos, exigindo manutenção, acompanhamento técnico e capacidade de resposta ao longo de toda a operação. Em contratos de longo prazo, como os previstos para o novo mercado de reserva de capacidade, a escolha dos parceiros precisa considerar não apenas o custo inicial dos equipamentos, mas também a solidez tecnológica, a continuidade dos serviços e os riscos associados à operação. São exigências que tornam a experiência acumulada e a estrutura de atendimento da Moura no país relevantes para as empresas que disputarão o leilão.
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