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Saneamento em Cáceres: Entre a oportunidade histórica do Novo PAC e o risco do duplo impacto no bolso do contribuinte

Por Sinézio Alcantara – Expressão Notícias
Valas a céu aberto, proliferação de doenças e apenas 7% do esgoto tratado para uma população de dezenas de milhares de habitantes. Esse é o retrato fiel do saneamento básico de Cáceres. A busca por uma solução para esse atraso histórico, no entanto, tem se transformado numa verdadeira “via-crúcis” política e burocrática, especialmente com a tramitação do Projeto de Lei n.º 011/2026, que autoriza o Executivo a contrair um empréstimo de mais de R$ 68,6 milhões junto à Caixa Econômica Federal.
A operação de crédito, que visa tirar o município do colapso sanitário, foi o centro de uma acalorada Audiência Pública. O que deveria ser um alento para os cacerenses, tornou-se palco de graves denúncias, revelando que a gestão do projeto pode impor um fardo pesado e silencioso à população pelos próximos vinte anos.
Controladora Interna da Autarquia Águas do Pantanal, Miriele Garcia
As falhas na condução do processo foram expostas de forma contundente por quem conhece a máquina por dentro. A Controladora Interna da Autarquia Águas do Pantanal, Miriele Garcia, fez uma grave denúncia em plenário. Ela criticou as omissões no projeto disponibilizado no site da Câmara, apontando a ausência de planilhas fundamentais para a análise dos parlamentares. “Como aprovar algo sem que a sociedade e os vereadores tenham acesso claro às planilhas de juros, encargos e amortização?”, denunciou, lançando luz sobre o custo real que estaria sendo escondido da população.
Como se não bastasse a falta de transparência nos números, as instâncias legais de participação e controle social foram sumariamente atropeladas. Élder Félix, Membro do Conselho Municipal de Saneamento Básico (COMSAB) e presidente do CREA, trouxe à tona o isolamento do órgão. Ele revelou que o projeto milionário avançou sem qualquer crivo técnico da entidade criada justamente para fiscalizar essas ações. “O Conselho não foi ouvido”, cravou Félix, evidenciando o autoritarismo na tramitação e levantando sérias preocupações sobre os impactos ambientais do despejo de efluentes no Rio Paraguai e a ausência de estudos topográficos adequados.
Diante do caos informativo, o vereador Cézare Pastorello (PT) fez uma intervenção focada na responsabilidade financeira. Ele deixou claro que aprova o financiamento e enalteceu a liberação dos recursos como uma oportunidade ímpar viabilizada pelo Governo Lula, por meio do Novo PAC. Contudo, o parlamentar fez um alerta incisivo sobre a modelagem do contrato, que prevê a retenção do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) como garantia.

“É uma grande oportunidade do governo Lula para tirarmos Cáceres desse atraso, mas não podemos fechar os olhos para a modelagem financeira. A Autarquia vai arrecadar cada centavo com as novas tarifas de esgoto, o dinheiro vai direto para os cofres dela, mas a dívida ficará nas costas da prefeitura. Se a conta ficar com o município, o cidadão que tiver o tratamento de esgoto pagará duas vezes: na fatura da água e na perda de investimentos em asfalto, saúde e educação, que dependem do nosso FPM”, disparou o vereador.
Para tentar detalhar a dimensão do projeto e responder aos questionamentos, o engenheiro sanitarista da Autarquia Águas do Pantanal, Mauri Queiroz de Menezes, explicou que esta primeira etapa da obra promete atender 28% das unidades residenciais e comerciais da cidade. Na prática, isso representa a implantação de cerca de 100 quilômetros de redes coletoras cortando bairros populosos como Vitória Régia, Nova Era, Jardim do Trevo, Jardim Guanabara, Jardim Celeste, Vila Mariana, São Luiz, além de trechos do Centro e da Cohab Velha. O destino final de todo esse efluente, após o tratamento, será o leito do histórico Rio Paraguai.

Tentando afastar o fantasma de um tarifaço imediato, a diretora executiva da autarquia, Samara Brant, foi taxativa ao garantir que a cifra milionária do empréstimo não será embutida na conta de água da população. A promessa oficial é de que o munícipe arcará tão somente com os custos de construção da caixa de coleta dentro de sua própria residência, responsabilizando-se apenas pela interligação até a rede pública que chegará à calçada.
Passando necessidade por saúde pública básica, mas inconformados com o engessamento financeiro do município e a falta de transparência, os cacerenses agora aguardam os próximos passos do Legislativo. Se, por um lado, o tratamento do esgoto é urgente para a qualidade de vida, por outro, sem a devida correção na lei, a conta final desse empréstimo promete ser amarga para o bolso do contribuinte.
A audiência foi realizada no plenário da Câmara Municipal de Cáceres na noite da última terça feira 23/06 e presidida pelo Vereador Franco Valério
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