Agricultura
Um mês depois, agro brasileiro ainda sente os efeitos do tarifaço e perde espaço nos EUA
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Um mês após a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, em 20 de fevereiro, que derrubou o “tarifaço” imposto por Donald Trump, o comércio agrícola entre Brasil e Estados Unidos segue longe da normalidade. O tarifaço, que impôs alíquotas de até até 50% foi considerado ilegal por extrapolar os poderes do Executivo. Na prática, as tarifas recíprocas mínimas de 10% foram anuladas, mas barreiras estruturais permanecem e continuam afetando setores relevantes do agro brasileiro.
Entre as medidas que seguem em vigor, destacam-se as tarifas de 25% sobre aço e alumínio, que impactam indiretamente cadeias como máquinas agrícolas e embalagens, além de investigações antidumping, exigências sanitárias mais rigorosas e novas propostas tarifárias em discussão no governo norte-americano. Paralelamente, ainda não há definição sobre a devolução dos valores pagos em 2025, com estimativas que superam US$ 100 bilhões — tema que segue em disputa administrativa e judicial nos Estados Unidos.
O impacto do tarifaço foi concentrado no segundo semestre de 2025. Entre julho e outubro, as exportações brasileiras totais para os EUA recuaram cerca de 40%. No agronegócio, a queda foi de 35% na receita e 41% no volume embarcado, refletindo a perda abrupta de competitividade. Mesmo com a derrubada das tarifas, parte desse mercado ainda não foi recuperada.
No café, principal item da pauta agro aos EUA, a retração foi uma das mais intensas. Dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil indicam queda de cerca de 50% nas compras entre agosto e novembro de 2025. O prejuízo estimado para o setor varia entre US$ 250 milhões e US$ 300 milhões. Em 2026, há recuperação parcial, mas os embarques seguem abaixo do padrão histórico, com contratos mais curtos e maior pressão sobre preços.
Na carne bovina, além da perda de mercado durante o período de tarifas elevadas, o setor continua enfrentando entraves sanitários. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes estima impacto entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões, considerando a queda de receita em 2025 e o aumento de custos para atender às novas exigências em 2026.
O segmento de suco de laranja e frutas frescas também ainda sente os efeitos. As perdas no auge da crise são estimadas entre US$ 100 milhões e US$ 150 milhões, com redução de até 30% nos embarques de frutas como manga e uva. Parte dos importadores norte-americanos migrou para outros fornecedores, e a recomposição desses contratos ocorre de forma gradual.
Na área de produtos florestais, o prejuízo superou US$ 100 milhões em 2025. O setor segue pressionado por investigações comerciais em curso nos Estados Unidos, o que mantém elevado o risco de novas tarifas específicas. Já segmentos menores, como mel e pescados, tiveram impacto proporcional ainda maior: em alguns casos, mais de 60% das exportações dependiam do mercado norte-americano, resultando em retrações bruscas e dificuldade de redirecionamento.
Isan Rezende
PASSIVO – Apesar da derrubada do tarifaço, o cenário está longe da normalidade. Os Estados Unidos mantiveram uma postura mais restritiva, substituindo tarifas amplas por barreiras técnicas, sanitárias e investigações comerciais direcionadas. Além disso, parte dos importadores já migrou para outros fornecedores ao longo de 2025, o que dificulta a recuperação imediata do market share brasileiro.
Outro ponto de atenção é o passivo financeiro gerado durante a vigência das tarifas. Exportadores e importadores aguardam definição sobre a devolução dos valores pagos a mais — tema que ainda tramita no sistema jurídico e administrativo norte-americano, sem prazo claro para resolução.
Para o produtor rural, o efeito prático permanece: o mercado dos Estados Unidos continua acessível, mas mais exigente, mais caro e menos previsível. O episódio acelerou a diversificação de destinos — com avanço das vendas para Ásia, Europa e Oriente Médio —, mas não eliminou a relevância do mercado norte-americano, que segue estratégico para produtos de maior valor agregado.
O presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende, lembra que a superação dos entraves ainda existentes passa, прежде de tudo, por uma atuação mais assertiva do governo brasileiro no campo diplomático e técnico.
“O Brasil precisa atuar com mais firmeza nas negociações bilaterais com os Estados Unidos, apresentando dados técnicos e sanitários robustos que comprovem a qualidade e a segurança dos nossos produtos. Não basta esperar a normalização do mercado; é necessário reconstruir a confiança comercial e garantir previsibilidade para o exportador”, afirma.
Segundo ele, outro ponto central é o alinhamento interno da cadeia produtiva para atender às exigências cada vez mais rigorosas impostas pelos mercados internacionais.
“Os setores que mais sofreram com o tarifaço precisam acelerar investimentos em rastreabilidade, certificação e padronização. Hoje, o acesso a mercados como o norte-americano depende de comprovação técnica detalhada, e isso exige integração entre produtor, indústria e governo. Quem não se adequar rapidamente tende a perder espaço de forma definitiva”, diz o Presidente.
Rezende também defende uma estratégia mais ampla de inserção internacional para reduzir a vulnerabilidade a decisões unilaterais. “O episódio mostrou que não podemos concentrar nossas exportações em poucos destinos. É fundamental avançar em acordos comerciais e abrir novos mercados, mas sem abrir mão de recuperar o espaço nos Estados Unidos. O produtor brasileiro é competitivo; o que falta é transformar essa competitividade em acesso efetivo ao mercado, com menos barreiras e mais segurança jurídica”, conclui.
Fonte: Pensar Agro
Agricultura
Soja responde por 84% das exportações e consolida força do agronegócio
A soja segue sustentando o protagonismo do agronegócio no Piauí. Em maio, a oleaginosa respondeu por 83,9% de todas as exportações realizadas pelo estado, movimentando aproximadamente R$ 460,5 milhões e confirmando a importância do Cerrado piauiense como uma das fronteiras agrícolas mais dinâmicas do Brasil. No total, o estado exportou cerca de R$ 549 milhões no período e manteve saldo positivo na balança comercial, mesmo diante de uma desaceleração dos embarques em relação ao ano passado.
O desempenho reforça o peso crescente do agro na economia estadual. Atualmente, as lavouras de soja ocupam cerca de 1,2 milhão de hectares no Piauí, concentradas principalmente na região sul do estado, integrante do Matopiba — fronteira agrícola que reúne áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. A expansão da cultura transformou o Cerrado piauiense em uma das principais regiões produtoras de grãos do país.
A produção está fortemente concentrada em municípios que se destacam nacionalmente pela produtividade e escala de cultivo. Uruçuí, Baixa Grande do Ribeiro, Ribeiro Gonçalves, Bom Jesus e Santa Filomena respondem por cerca de 75% da produção estadual de soja. Alguns deles figuram entre os maiores produtores brasileiros de grãos, impulsionados pela adoção de tecnologia, mecanização e agricultura de precisão.
Apesar da retração de 15,7% nas exportações em comparação com maio de 2025, o agronegócio manteve sua capacidade de geração de divisas. O resultado foi favorecido também pela queda expressiva das importações, que recuaram 75% no período, contribuindo para um superávit comercial próximo de R$ 496 milhões no mês.
Além da soja em grão, a pauta exportadora do estado inclui produtos de maior valor agregado, como farelo de soja, óleos vegetais, mel natural e derivados agroindustriais. Esse movimento demonstra uma gradual diversificação da produção e amplia as oportunidades de geração de renda dentro da própria cadeia produtiva.
A China continua sendo o principal destino dos produtos piauienses, absorvendo cerca de dois terços das exportações realizadas em maio. Espanha, Turquia, Eslovênia e Egito também figuram entre os principais compradores, evidenciando a inserção crescente do estado em mercados estratégicos para o agronegócio mundial.
O avanço da produção agrícola no Cerrado piauiense tem sido acompanhado por investimentos em armazenagem, logística, infraestrutura e tecnologia. Esses fatores vêm permitindo ganhos de competitividade e consolidando a região como uma das áreas mais promissoras para a expansão sustentável da produção de grãos no país.
Com mais de um milhão de hectares cultivados e participação dominante na pauta exportadora estadual, a soja permanece como a principal fonte de geração de riqueza do agronegócio piauiense. O desempenho da cultura reforça o papel do estado no abastecimento dos mercados internacionais e amplia a importância do Matopiba na produção brasileira de alimentos, fibras e energia.
Fonte: Pensar Agro
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